domingo, 18 de agosto de 2013

O INVERNO QUENTE NAS RUAS DO BRASIL



              O Brasil teve um inverno bem quente nas ruas do país neste ano com o grande Movimento de Contestações. Embora ainda estejamos no calor desta manifestação, mas já dá para dar umas pinceladas sobre este Movimento.
              Os vinte centavos do aumento da passagem de ônibus em São Paulo tornaram-se o grande mote das manifestações que deixaram a “intelligentzia” do país atônita e, até prosaicamente, este articulista. Afinal, se alguém do estrangeiro perguntasse, um dia antes de o movimento ser iniciado, ao governante de plantão, “como está o seu país?”, a resposta certamente seria:  “tudo como dantes no quartel de Abrantes”, frase muito utilizada pelo então deputado Ulysses Guimarães, que faleceu em 1992, em suas respostas sobre as quantas iam o trabalho na Câmara dos Deputados.
              Resposta errada. Um turbilhão de manifestação eclodiu pelas principais cidades do país e esquentou o inverno e as cabeças da elite pensante e também dos governantes. Embora ainda haja focos de manifestações, o grosso do movimento de certa forma se esvaiu. Afinal, o que queriam aqueles manifestantes oriundos de todas as classes sociais? Exigir a adoção do passe livre para estudante no transporte urbano? Desestabilizar o governo central? Desestabilizar os governos estaduais e municipais oriundos de vários partidos? Acabar com o sistema representativo eleitoral atual? Retirar da presidência do Senado Federal o condenado presidente? Dar um basta a tanta corrupção governamental? Fiz o recorte destas questões dentre as várias abordadas pelo movimento das ruas, para efeito de análise, já que o movimento era mais amplo em suas reivindicações.
              O grande historiador inglês Eric Hobsbawm, num magnífico artigo, publicado pela Folha de S. Paulo em 12/11/90, sobre a queda do Muro de Berlim em 1989, colocava como título: “1989, o que sobrou para os vitoriosos”. Nesse artigo, analisava, ainda no calor da derrocada do socialismo real, os aspectos nada vangloriosos para os que se achavam vitoriosos. Em síntese apertada, dizia que somente os países ricos podiam comemorar. Mas, num curto espaço de tempo, tendo em vista o recrudescimento social que adviria da “Queda do Muro de Berlim” em 1989.
              O Movimento Passe Livre – MPL - foi, inicialmente, a centelha dos protestos. Contudo, o Movimento de Protestos acabou tomando vários rumos no ideário e ação pelas maiores cidades do país.
              O curioso era que as reivindicações eram muito variadas. Desde a implantação de Passe Livre no transporte público urbano à queda de Renan Calheiros da presidência do Senado, passando pelas reivindicações dos homossexuais, das feministas... E isso deixou confuso o Movimento em suas reivindicações no sentido de captar o que de fato movia tanta rebeldia. Como não havia uma liderança ou lideranças de peso nos moldes tradicionais de se reivindicar, tornou-se difícil o diálogo com as instituições criticadas negativamente por ele.
              Num arroubo de militância de outrora, Rui Falcão, presidente nacional do Partido dos Trabalhadores - PT convocou, no calor das manifestações do MPL, os militantes do partido para também se embrenharem nas ruas. Dizia ele que o movimento não era estranho ao PT.
              Ledo engano. As manifestações são e eram totalmente estranhas ao PT. Eram estranhas também aos demais partidos. Mas o PT sempre teve, quando na oposição, um histórico de participação nos movimentos sociais reivindicatórios.
              Dizer, exatamente, o que o Movimento queria, à exceção do Passe Livre, é fazer um exercício mental temerário. Contudo, havia um fio condutor nas manifestações: a necessidade das instituições governamentais e sociais de terem canais mais efetivos na busca de soluções para os problemas do país.
              Se no passado recente, havia o PT, a Central Única dos Trabalhadores - CUT, MST e seus congêneres para fazer este papel, atualmente não há instituições que façam esse trabalho de mediar os conflitos governo/sociedade civil.
              E isto se deu porque houve um aliciamento dessas lideranças, nos últimos dez anos, para fazerem parte do governo federal a preço de nobres cargos rentáveis. Esta atuação deixou a sociedade civil sem válvula de escape para os desmazelos da República em todos os seus níveis de governo. Se esta estratégia funcionou por um período, é claro que não funcionaria para sempre. A história é sempre traiçoeira com aqueles que acham que a dominam. Vejo que esta “doce” estratégia petista de calar os movimentos sociais foi um dos estopins para a eclosão das diversas reivindicações do Movimento de Contestação. Mas ele não era só contra o PT, era contra toda forma de administrar o bem público. Era contra os governadores estaduais de diferentes partidos como PSDB, PMDB...
              Outro grande problema que contribuiu para a rebeldia das ruas foi o fato de o Congresso Nacional ter se tornado uma espécie de “puxadinho” do Palácio do Planalto. Decorrente disto, a interlocução do Congresso com a sociedade ficou ainda mais capenga. É bem verdade que o Congresso é sempre muito pusilânime na mediação com a sociedade civil. Contudo, até esse aspecto covarde praticamente deixou de existir nos últimos anos.
              Sobrou para a imprensa a tarefa de contestar o estado de coisas que assolam a República. Contudo, a imprensa também se prima pela parcialidade. Sempre funcionou e funciona na base de interesses corporativos. E esta é também a razão dela ser objeto de repúdio pelo Movimento de Contestação e ser chamada pelos adeptos do governo central de “Partido da Imprensa Golpista” – PIG. Entretanto, os adeptos do atual governo tem certa razão em repudiá-la. Afinal, ela se tornou o último refúgio de alerta contra as vicissitudes do poder.
              Ora, a imprensa, esta mesma que deu amplo destaque ao Novo Sindicalismo, ao nascimento do PT, que servia de base para as denúncias contra os governos anteriores, é agora chamada de golpista. Ela sempre foi o que é: atua nos interesses de quem paga mais. Ela também não era tão boazinha para os governos anteriores e nem por isso era chamada de golpista. Mas, via de regra, a grande imprensa é muito mais a favor dos governos de plantão do que contra.
              O Movimento de Contestação ficará para história como uma quebra de paradigma na concepção tradicional da política brasileira. Se, no passado recente, os partidos, sindicatos e movimentos sociais organizados reivindicavam o elo entre o governo e a sociedade, o Movimento de Contestação forneceu-nos uma nova forma de reivindicar os nossos direitos. Trata-se da reivindicação sem a mediação tradicional. Uma espécie de DEMOCRACIA DIRETA. Se houve excesso aqui ou acolá, são coisas menos onerosas do que manter uma casta de políticos que se elegem e, uma vez no poder, perdem a relação com a sociedade civil.
              Parafraseando Hobsbawm, o que sobrou, sobra ou sobrará para os vitoriosos após o inverno das ruas? Num exercício futurista, sobrará um país em que os jovens ousaram a enfrentar os poderes constituídos, propondo novas formas de mediações e interações. Eles não eram e nem são inocentes úteis. São corajosos e chacoalharam a roseira dos poderes constituídos, dando alento ao GIGANTE ADORMECIDO.
              Como herança, as instituições sociais representativas deverão se adequar aos interesses da sociedade de forma mais efetiva ou poderão ser engolidas, em breve, por novas rebeliões da sociedade civil.

Luiz Fernando da Silva

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

SOBRE O PENSAMENTO E A AUTONOMIA




Analistas dos costumes e dos comportamentos atuais, como o sociólogo polonês Zigmund Bauman, apontam para um fenômeno curioso sobre as tecnologias hodiernas de comunicação, especialmente sobre a internet. Segundo eles, os meios atuais de conexão entre as pessoas propiciam a elas estarem próximas de muitas outras pessoas. É possível, por exemplo, nas redes sociais, o estabelecimento de contato com pessoas que estão muito longe geograficamente, até com aquelas que estão em outros países. Quase todo mundo tem um computador com internet em casa, e é coisa rara, indício inclusive de perturbação mental, dizem os mais afoitos, a pessoa não ter email, facebook, skype e tantos outros por aí. Há ainda os iphones, ipads e androids da vida. Estes conferem mobilidade e versatilidade à conectividade.
Numa mesa de bar, numa reunião de amigos, num almoço em família, nas salas de espera e até nas salas de aula estão lá os plugados no mundo virtual (aqui, só pra não deixar passar a oportunidade, abramos este parêntese e digamos de passagem: como é chato e desagradável numa reuniãozinha de amigos, num bar, por exemplo, uma pessoa que está agarrada a um celular e não pára de olhar para ele e não pára de teclar e tira foto o tempo todo para postar no face). Ó céus! Pior ainda é quando ela fica chamando outras pessoas para virem participar do evento e passa o tempo todo assim. Para dizer o mínimo, acho uma atitude brega. Mas... paciência é o que resta numa hora dessas. Enfim, vivemos na era da comunicação. Estamos conectados quase o tempo todo.
Só que, de acordo com esses mesmos analistas - e aí reside o fato curioso que eles apontam, mesmo tão próximas, as pessoas estão cada vez mais isoladas. Como se vivessem em ilhas virtuais. O que se verifica é que a virtualização das relações, curiosamente, gera distância entre as pessoas. A regra é mais ou menos esta: quanto mais conectadas, mais encapsuladas e mais distantes as pessoas ficam umas das outras.
A internet tem o poder sim de conectar milhões de pessoas sem precisar do encontro físico e material entre elas. Só que, exatamente por isso, a realidade concreta torna-se prescindível, ela pode ser dispensada. Uma realidade virtual passa a vigorar nesse contexto. Esse mundo virtual trouxe um novo modo de relação entre as pessoas, marcado pelo fechamento sobre si mesmo e pela perda da necessidade do contato real, concreto entre os seres humanos. Tal situação de distanciamento entre as pessoas tem por consequência sentimentos de isolamento e solidão. Crescem os índices de depressão, transtornos de ansiedade e outras patologias do espírito. Fenômeno curioso mesmo esse. Curioso e complexo. Por isso, deixemo-lo para futuras elucubrações. Falei sobre ele a fim de dizer que, como em tudo na vida, nada é totalmente bom nem totalmente ruim.
A internet, com certeza, tem lá seus lados obscuros e perniciosos. No entanto, nela podemos encontrar coisas muito boas. Como exemplo disso - bajulação à parte - tomo a iniciativa do meu querido amigo Luiz Fernando em criar este espaço de veiculação de ideias. Sei de sua inquietação intelectual e também da sua ânsia pelo debate e pela troca de ideias, o que o legitima para ser o autor deste blog.
Se vivemos numa época de esvaziamento das relações entre as pessoas, vivemos também numa época marcada pela futilidade. É comum encontrarmos por aí, com destaque para as redes sociais, pessoas que levam suas vidas numa monotonia bovina, em cujas cabeças há muito não entra uma ideia nova e de cujas bocas só saem obviedades papagaísticas. Coisa triste. Quando não refletimos sobre a nossa condição e situação no mundo, outros irão fazer isso por nós. É batata! Irão mesmo! Aí, já conhecemos mais ou menos no que isso pode dar: expedientes fraudulentos, corrupção, farra com o dinheiro dos pesados impostos que pagamos, autoritarismos, desmandos e uma série de outras coisas do gênero. Sem falar nas besteiras que vamos fazendo ao longo da vida quando são os outros que pensam por nós, quando são os outros que nos governam e ditam inclusive as regras da nossa subjetividade. Geralmente pagamos um preço bem alto por delegarmos o pensamento a terceiros. É triste, mas acontece. E como! Por isso, seja bem-vindo este blog. Que ele possa ser um espaço de autonomia, porque somente quando pensamos é que somos autônomos.

JOÃO PAULO BRAGA FLORIANO
Psicólogo

domingo, 11 de agosto de 2013

O CARGO PÚBLICO E AS VANTAGENS PESSOAIS



                            A fórmula básica para evitar que elejamos candidatos corruptos a cargos públicos eletivos é dada, de forma geral, como: eleitor, fique atento sobre o passado do seu candidato, não aceite as maquiagens, coisas próprias de candidatos em disputas eleitorais...
                            Ora, não só a política, como qualquer outra atividade humana, são eivadas do poder simbólico. A rigor, em termos ontológicos, qualquer atividade humana é política. Na verdade, o “diabo” aparece sob várias roupagens. O discernimento político não comporta apenas o decorar de certas regrinhas, já que elas próprias mudam constantemente.
                                      Em que pese as constantes notícias de corrupção no poder público, não há dúvida quanto ao nível das disputas eleitorais, que tem melhorado muito nos últimos anos. Contudo, jamais deixaremos de ser vítimas das maquiagens eleitorais. O que pode acontecer, na melhor das hipóteses, e que tem acontecido, é a melhora no nível das maquiagens dos homens públicos.
                            O sociólogo americano Irving Goffman colocou que o ser humano dramatiza diuturnamente o seu cotidiano. Se existe uma autenticidade no ser humano, a mesma é dada quando há pequenos descuidos. Ou seja, quando esquecemos o “script” ou quando perdemos o autocontrole. Portanto, o espaço para manobras na política é infinito.
                            Ao longo da história, os casos de corrupções envolvendo os governos municipais, estaduais e federais vêm demonstrar, seguindo as regrinhas de comportamento político, que de duas, uma: ou o eleitor é muito burro ou os candidatos e, hoje, vereadores, deputados, prefeitos, governadores e presidente da República, são muito espertos. Vejo que nem uma e nem outra tem cabimento. Ambos, eleitores e candidatos, são pessoas envolvidas na rede de relações sociais em que a margem de manobra, dada pelo viés da realidade a que estamos submetidos, propicia tal fato. As relações humanas, como já colocadas, estão inseridas numa pré-relação em que o caráter confiança é uma condição fundamental. A antiga “pegadinha do Faustão”, o programa “Chaves” e “Chapolim” demonstram o quanto as relações humanas estão envoltas num simbolismo pré-concebido. Quando assistimos a tais programas, ficamos atônitos com tanta “burrice”. Pois é.... são essas “burrices” que fazemos cotidianamente, como autômatos, e sem perceber. Remédios contra elas não existem. Fazem parte das petrificadas relações sociais internalizadas por todos os seres humanos. Do contrário, ficaríamos loucos totalmente se precisássemos raciocinar sobre cada ato que realizamos no nosso cotidiano
                            O candidato, quando em campanha, usa e abusa desse simbolismo.. A propósito, Benito Mussolini ficava horas e horas em frente ao espelho treinando os trejeitos que seriam aplicados mais tarde. O candidato, nesse sentido, precisa apenas captar o que a multidão anseia. A multidão, por sua vez, como uma massa levada por correntes de influência, anseia por certas respostas. A interação entre ambos é apenas uma questão de competência dialógica. A “massa”, como muitos colocam, é manobrável.
                            O desenvolvimento do liberalismo trouxe até nós uma visão de mundo que está alicerçada no individualismo. O grande problema é que a “cultura” do associativismo não tem sido capaz de estancar o avanço do individualismo. O resultado é um híbrido de associativismo e individualismo. Nessas condições, ao sujeito cabe apenas a competência de utilizar ambas as visões de mundo como melhor lhe aprouver.
                            Voltando ao caso da corrupção governamental, não há como não ficarmos estarrecidos com a relação promíscua entre o público e o privado. Maria Sylvia de Carvalho  Franco, num magnífico trabalho denominado “homens livres na ordem escravocrata” já colocava que no Brasil temos a maior dificuldade em separar o público do privado. Esses senhores acusados de lesar o erário público em proveito próprio se candidataram aos cargos públicos eletivos com uma única finalidade: tirar o máximo proveito próprio. Contudo, quando candidatos, pregavam o bem comum. Numa palavra, são verdadeiros artistas na tarefa de misturar o individualismo manifesto com a pregação latente associativista. O que está em jogo são centenas de milhares de reais que tomam caminho diferente do devido. Mas... por que fazem isso?
                            O caminho que os leva ao centro do poder político é dotado de toda uma sistemática de compromissos. Ninguém se elege sem ter compromissos com grupos, pessoas... Uma vez no poder, a primeira coisa é passar a saldar os compromissos e, de quebra, fazer uma caixinha para a próxima campanha. Como a máquina pública é extremamente complexa, ou seja, há repartições para tudo; como para viver em sociedade é preciso ter confiança no outro, há todo um caminho propício para prosperar a corrupção. A legislação também colabora: o crime de “colarinho branco” ainda não começou a ser punido tal qual deveria. Resultado, o crime acaba compensando, a despeito das frases moralistas.
                            Culpar apenas os sujeitos envolvidos nessa trama, e muitas outras a que estamos submetidos cotidianamente, é apenas uma forma de nos eximirmos do processo social puro e simples. Esses sujeitos estão, também, envolvidos nas relações sociais cristalizadas de uma nação em que a cidadania caminha lentamente. Eles não são alienígenas de um planeta do mal. São oriundos de nosso meio social e, todos nós, de uma forma ou de outra, temos uma parcela de culpa nessa orgia do dinheiro público. Criticar os políticos como agentes do mal, usurpadores do erário público, como enganadores... é apenas uma forma de ingenuidade ou um simples desabafo... Numa palavra, desconhecimento das interações sociais reais.
                            Esses sujeitos só agem assim porque os mecanismos de controle de nossa sociedade são frouxos. É bem verdade que nos países considerados de primeiro mundo há, também, corrupção. Entretanto, os mecanismos de controle nessas sociedades são mais eficazes. Como exemplo, dentre outros, tivemos a prisão do megaespeculador que quebrou o Banco Barings em 1997. No Brasil, os especuladores, que quebram Banco, andam à solta, vide caso das quebras de Bancos, como o Econômico, Nacional... Outro dia, num acinte ao nosso raciocínio, Sílvio Santos ficou falido num dia devido à quebra do seu banco Panamericano e a penhora de seus bens para garantia do rombo e rapidamente já tinha recuperado todo o seu patrimônio penhorado. Parece conto de fadas, mas não o é... São caminhos tortuosos que a política para banqueiros propicia. E, o pior, nenhum sindicato, jornal, enfatizou devidamente esse fato escabroso do sistema financeiro brasileiro. O prejuízo de mais de 2 bilhões de dólares foi “socializado”...
                            As mudanças sociais em “condições consideradas normais de temperatura e pressão” são lentas. O problema é que, dada o pouco tempo de vida do ser humano em relação à possibilidade de ver a cristalização das mudanças sociais, há uma pressa, às vezes, descomedida em relação à exigência de mudanças sociais. Esse fator de lentidão se dá, entre outras coisas, para que consigamos internalizar os novos códigos sociais.
                            Se existe uma máfia de homens públicos que procuram criar dificuldades para o cidadão para, posteriormente, vender facilidades, se o “hobbesianismo social”, segundo Wanderley Guilherme dos Santos, é uma característica, no aspecto geral, de nossa sociedade, a única saída é o constante trabalho em prol da inserção dos aspectos ligados à cidadania no nosso cotidiano. O resto é discurso de salvador da pátria, de ditador de plantão ou de milenarista.

Luiz Fernando da Silva

terça-feira, 6 de agosto de 2013

ECONOMIA, POLÍTICA E SIMBOLOGIA




                         A economia, enquanto uma disciplina universitária, insere-se num contexto tênue entre a área de humanas e a área de exatas. Para a maioria dos economistas, trata-se de uma disciplina que tem muito mais charme que as que estão estritamente no contexto de humanas. A propósito, o eminente filósofo Karl Marx colocava  a economia como a base da sociedade humana. Em outras palavras, para mudar uma dada sociedade era preciso primeiro mudar a sua base econômica. Entretanto, essa não é a realidade nessa disciplina, já que a mesma trabalha com expectativas sociais. Outro eminente filósofo chamado Max Weber pregava uma forma diferente de ver a sociedade. Para ele, a economia pode ser tão importante quanto as outras esferas eletivas de uma dada sociedade. Numa palavra, dentre as várias esferas eletivas como a religião, o militarismo, a política...  a economia poderia, casualmente, ser a mais importante.
                           Passaram mais de cem anos e, ainda hoje, deparamo-nos com essa emblemática questão. Afinal, a economia é ou não é a base da sociedade humana? Para responder a essa questão, apoiar-me-ei em R. Collins, um sociólogo americano que tem um trabalho muito interessante chamado “Os Fundamentos Não-racionais da Racionalidade”. Nesse trabalho, o autor coloca que na verdade existe na sociedade humana um aspecto denominado de pré-contrato. Em outros termos, toda vez que interagimos com os outros seres humanos, não está explícito um contrato nos moldes capitalistas. Existe, de antemão, uma relação de confiança. Como exemplo e de forma geral, quando vamos a um restaurante e pedimos uma refeição não existe o pagamento antecipado por esse serviço. O proprietário do estabelecimento dá-nos um voto de confiança, ou seja, há uma expectativa de que receberá pelo serviço prestado. Esse aspecto é chamado por Collins como um pré-contrato. Numa palavra, há uma espécie de irracionalidade no que, no capitalismo, é considerado como racionalidade. A meu ver, fazendo uma inferência, talvez haja uma semelhança com o que Marx chamava de relações pré-capitalistas. Collins vai mais longe: seria impossível haver sociedade se agíssemos somente racionalmente.
                      Outro pensador contemporâneo, o grande Norberto Bobbio, filósofo, que foi senador vitalício italiano, coloca que, no caso da democracia, existe uma tarefa não cumprida: a necessidade de se tomar medidas econômicas com a participação dos cidadãos. Para tanto, o governante não pode, primeiramente, avisar os seus súditos de que no outro dia vai tomar várias medidas econômicas que afetarão as suas vidas. Se fizer isso, simplesmente o seu plano não funcionará. Na verdade, aí reside um fator preponderante de sobrevivência política envolta por um simbolismo “prático”. A necessidade de se trabalhar com as expectativas da população em prol de medidas, muitas vezes, amargas, mas que, no frigir dos ovos, pelos menos em tese, o governante tem como meta a governabilidade e, por consequência, a melhoria das condições de vida da população.
                            É nesse sentido que o ex-presidente FHC, quando colocou um “expert” em economia, como presidente do Banco Central do Brasil, tinha como intuito, pelo menos a meu ver, de estancar a falta de crédito do mundo em relação ao Brasil, no auge da crise econômica dos anos 90. Para muitos, tratava-se de colocar uma raposa no galinheiro. Afinal, o sr. Armínio Fraga era um auxiliar do mega-investidor/especulador Georges Soros. Mas o que estava em jogo não eram apenas números e sim uma questão de pré-contrato, que seria consubstanciado em futuros contratos. O ex-presidente Lula fez a mesma coisa ao colocar o deputado federal eleito pelo PSDB, Henrique Meirelles, que fora presidente do Bank of Boston, como presidente do Banco Central do Brasil. É uma questão de confiança. E isto é algo do simbolismo.
                              Passado o pior, o mundo se rendeu ao sr. Armínio Fraga. Para muitos jornais, ele era um super economista. Talvez o melhor do mundo. Modesto, o Sr. Armínio colocou que apenas teria usado do bom senso. Ora, na verdade, o presidente do Banco Central apenas escondeu o jogo ao não explicitar, ainda que com poucas palavras, a estratégia do governo de colocá-lo lá. O termo bom senso é tão amplo que todos nós julgamos tê-lo. É como uma espécie de panaceia. Serve para todas as situações. Se o segredo é a arma do bom negócio, o sr. Armínio estava com toda razão ao fingir-se de modesto. O mesmo ocorreu com o Sr. Henrique Meirelles. Muito tranquilo e sabedor das dificuldades em trabalhar num governo eivado de ranço contra o capitalismo, geriu o Banco Central, de tal forma competente, que nem parecia estar num governo desacreditado pelo financeiro internacional nos primeiros meses de atuação.
                        Aqui, fica evidenciado o poder do simbolismo no que tange uma área em que os economistas estrangeiros, egressos da Universidade de Chicago (EUA), considerada a meca da economia e, principalmente, do monetarismo, não reconhecem. Numa palavra, tentam colocar nos seus países de origem, principalmente como cobaia, aspectos puramente monetaristas.
                     É nessa seara permeada pelo simbolismo que uma disciplina como a antropologia, considerada nos anos 60 como coisa de pessoa frívola, começa a ganhar adeptos. Isso tem se dado porque numa sociedade complexa não existe espaço para fórmulas mágicas, acabadas, que não necessitam de aprofundamento nas questões específicas de cada realidade cotidiana.
                              A antropologia trabalha fundamentalmente o universo simbólico de uma dada sociedade. Nesse sentido, capta como aspectos fundamentais da sociedade humana aquilo que era considerada como coisas banais, desprovidas de valor, caso houvesse uma revolução a partir da base econômica.
                         Como a sociedade humana não vive sem esse simbolismo até porque, como colocou Baruch Spinoza, filósofo holandês, todo ser humano tem a sua fragilidade, o desprezar do simbolismo fez com que várias iniciativas baseadas na realidade somente “concreta” se esvaíssem. A bem da verdade, o simples fato de acreditar na possibilidade de uma realidade concreta já é uma espécie de pré-contrato permeada pelo simbolismo, ou seja, se acredito num projeto é porque um contrato existirá a posteriori. Entretanto, nada garante que esse projeto, uma vez concretizado em contrato, seja de acordo com o crédito dado a ele.


LUIZ FERNANDO DA SILVA