sexta-feira, 18 de abril de 2014

APATIA POLÍTICA, PARTIDOS E BUROCRACIA (continuação)



Aspectos estruturais

Norberto Bobbio[1] apresenta outros fatores que contribuem para o descrédito da democracia: a demora no atendimento das demandas da população (e isso quando tais demandas são, de fato, atendidas); a continuação das oligarquias no poder; o poder invisível; o poder da tecnocracia...Ora, sabemos que no autoritarismo, como a demanda é reprimida, o atendimento às poucas demandas que surgem é rápido, já que não depende de exaustivas discussões.
Segundo Bobbio[2], na questão sobre a qual a população participa do usufruto e não da gerência da democracia é outro fator de apatia política. Ainda segundo ele, o neocorporativismo reforça essa apatia política, ou seja, se os representantes (capas pretas no jargão político e sindical) se articulam no poder (ainda que sejam opostos, politicamente, entre si), a despeito da população, não há motivos claros para me convencer de que minha participação valha à pena para mudar um determinado estado de coisas.
Um aspecto que é discutido por Wanderley Guilherme dos Santos[3] é sobre a representação dos partidos políticos como veículos dos anseios da população.
Sobre a adequação dos partidos políticos na transição e pós-transição dos regimes autoritários, Wanderley coloca que: “...os partidos políticos tendem a desempenhar um papel eminentemente estratégico: tanto favorecendo o parto de uma nova ordem pelo uso do monopólio da representação política formal que detém e pelo reconhecimento de seu declínio enquanto oligopólio de participação; ou dificultando a transformação política pela pretensão de reter, juntamente com o monopólio da participação. Nesse último caso, os partidos políticos latino-americanos arriscam-se a erosão de sua legitimidade, fenômeno que afeta todos os sistemas partidários ocidentais”.
O autor faz essas discussões em meados da década de 1980. Naquele momento, Wanderley coloca que a representação partidária, apesar de sua histórica decadência, tinha um papel importante, já que estava em transição um sistema autoritário para um sistema democrático. Mas a medida que a liberalização avança, terá a representação partidária (política formal) capacidade para se ajustar ou abarcar as novas demandas? O autor coloca que “... a lei de ferro da oligarquia foi e é verdadeira em contextos nos quais o oligopólio da oferta de participação puder ser mantido pelo sistema partidário de representação”. Michels[4] me parece ser mais amplo, em seu conceito sobre a lei de ferro das oligarquias políticas, quando coloca que há descolamento entre os interesses dos dirigidos e os interesses das organizações (quando estas crescem em número de adeptos e também em suas estruturas): “tanto o Estado democrático, um partido político ou uma liga de resistência proletária...”





[1][1]  O Futuro da Democracia, p. 26 passim.
[2][2]  Op. Cit., pp. 26-27.
[3][3]  O século de Michels, Revista de Ciências Sociais, Vol. 28, n.º 03, p 298.
[4][4]  As tendências burocráticas das organizações partidárias IN Política e Sociedade, p. 79.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

APATIA POLÍTICA, PARTIDOS E BUROCRACIA


INTRODUÇÃO

Como militante sindical e, principalmente, militante em partido político, nunca consegui entender o fraco desempenho dos partidos políticos na relação orgânica com a sociedade. Incomodava-me muito o fato de as pessoas não darem a devida importância a que os partidos políticos, segundo o meu entendimento, mereciam. Ao estudar alguns aspectos do funcionamento dos partidos políticos, deparei-me com o trabalho de Wanderley Guilherme dos Santos sobre o “Século de Michels”[1]. Para mim, este trabalho constituiu-se num “divisor de águas”. Em outras palavras, a partir dele, comecei a questionar o oligopólio formal da representação política em que estão inseridos os partidos políticos, seja enquanto canais de representação dos anseios dos segmentos sociais, seja na oferta de participação política. Numa palavra, não bastava ficar preocupado somente com a representação real dos partidos políticos na sociedade, mas de questionar a própria necessidade de representação exercida pelos partidos dentro do contexto da oligopolização da oferta de participação.


DESENVOLVIMENTO


Aspectos de conjuntura nacional


 No Brasil, segundo a Constituição federal, cap. IV, art. 14, parágrafo 3.º, há a seguinte colocação: “São condições de elegibilidade na forma da lei: ‘...’; V - a filiação partidária; ‘...’. Ora, se a partir da Constituição federal os partidos políticos detêm o monopólio da representação formal político-partidária, ou seja, estão inseridos no oligopólio formal da oferta de participação eletiva; se as disputas interpartidárias pelo poder carecem de partidos realmente fortes segundo uma certa organicidade de princípios, fidelidade real partidária... se o discurso corrente entre os defensores da democracia é o de que precisamos fortalecer as organizações partidárias para que tenham maior credibilidade junto à sociedade; se há necessidade do voto obrigatório; então, há algo de errado com o sistema político-partidário na representação formal existente em nosso país.
A propósito dessa situação, Francisco Weffort colocou que a vivência democrática do país no período recente coincidiu com uma crise aguda do Estado em termos sócio-econômico-financeiro. Se foi a crise que contribuiu para a edificação do estado de direito juntamente com a luta da sociedade civil, esse mesmo estado de direito (na ótica da população menos organizada) não tem conseguido dar resposta “satisfatória” a população em geral: não houve melhora real na distribuição de renda; os índices de desenvolvimento sociais, segundo a ONU, continuam sendo um dos piores do mundo; houve aumento do endividamento interno e externo; a corrupção continua impune...
 Para Weffort, é difícil para o político ou o intelectual, partidário da democracia, demonstrar para a massa que a mesma é a melhor forma de governo. 
Weffort[2] coloca que o raciocínio de Afonso Arinos de Mello Franco tem sentido quando o mesmo coloca que na história política do Brasil nunca houve a compatibilização entre liberdade e igualdade .

 O que dá para inferir a partir das observações de Weffort é que a apatia da população pela política nos últimos tempos, entre outros fatores como o social, histórico e cultural, é de conjuntura nacional, ou seja, a pouca eficiência prática da democracia a tem deixado num “lugar comum”, sem motivos para comemorar a sua reimplantação no país. Isso é terrível para a democracia, já que a mesma pressupõe participação da população e que esta não vê nela, concretamente e cotidianamente, atrativos para tal participação.
Recorrendo à terminologia de Robert Dahl,[3] Weffort coloca que há, no caso brasileiro e latino-americano, um “sistema dual” onde uma minoria que está integrada ao sistema usufrui dos mecanismos de participação efetiva, já quem está fora, a maioria, é vítima do regime de coerção.
No caso de nosso país, segundo ele, a população clama por melhores condições de vida e não consegue visualizar na democracia uma melhora no seu padrão de vida. Nesse sentido, o autor teme por uma banalização do regime democrático, onde seria aberto flancos para aventureiros de plantão tomarem o poder.
 Em relação aos movimentos sociais, Warren e Krischke[4] colocam bem a questão de que esses movimentos, ainda hoje, fazer política como um “biombo” para as grandes transformações sociais, vide socialismo, a despeito das melhorias imediatas na vida cotidiana da população. José Álvaro Moisés é um dos teóricos que trabalhava os movimentos sociais a partir desta tese. Já Éder Sader é um dos teóricos que tem uma concepção “diferente” da tese que Moisés trabalhava. Para Sader, há necessidade de valorizar os aspectos considerados mundanos, na vida da população, pelos teóricos das grandes transformações sociais. Essa concepção “diferente” tem aumentado os seus adeptos. Entretanto, ainda há grande apatia em participar dos movimentos sociais, tendo a tese das grandes transformações sociais contribuído para tal.

(continua) 

Luiz Fernando



[1] Revista de Ciências Sociais, RJ, Vol. 28, n.º 3, 1985, p.283-310.
[2]  Qual Democracia? P. 15

[3]  Qual Democracia? P. 23
[4]  UMA REVOLUÇÃO NO COTIDIANO? P. 42

quinta-feira, 27 de março de 2014

CONCLUSÃO SOBRE JK



O governo JK (1956-60) representava politicamente um avanço com relação à democracia. E isso fica ainda mais claro se concebermos aquele momento histórico como um período conturbado no Brasil e no restante do mundo. Se não vejamos: aqui no Brasil passara-se menos de dois anos do suicídio de Getúlio Vargas; havia uma grande disputa entre setores nacionalista e setores mais flexíveis; os militares encontravam-se irrequietos na caserna. Já em relação ao mundo, os problemas não eram menores: rearticulação de forças no pós-guerra; Guerra Fria entre as duas maiores potências do mundo, consubstanciada nos EUA e URSS; enfrentamento entre estas potências, de forma indireta, através de conflitos localizados como na Guerra da Coréia e Revolução Cubana.
O suicídio de Getúlio, que causara tanta comoção na população brasileira, deixava um espólio cruel para o próximo presidente eleito: ter o mesmo carisma do Velho Caudilho ou “pai dos pobres”.
É nessa seara que o Governo JK irá se desenrolar. No âmbito interno, consegue fazer malabarismo entre os setores nacionalistas e internacionalistas (ou menos nacionalistas). Para tanto, evoca que a relação com as economias centrais deve ser no sentido de “inferioridade” (entre país desenvolvido e subdesenvolvido) e não de exploração. A meu ver, com essa “sacada”, JK tenta anular os discursos ideoligizantes dos nacionalistas e esquerdistas e, de quebra, afirmar o seu discurso desenvolvimentista; no Congresso, exerce com precaução e moderação a prerrogativa do veto presidencial, angariando-se, assim, forte simpatia por parte dos políticos.
Os militares na história brasileira, principalmente a partir da República, sempre se julgaram como os “salvadores da pátria”. Nos anos 20, há o Movimento Tenentista que tinha como aspiração a moralização da vida pública brasileira, ou seja, acabar com a política exercida a partir das oligarquias, principalmente de São Paulo e de Minas Gerais na famosa Política do Café com Leite. Apesar da “boa intenção” desse Movimento, o mesmo fora derrotado. Mas, deixou muita influência tal como: “... a realização histórica de orientação genérica assumida pelo Movimento Tenentista como o reformismo e o nacionalismo. Portanto, na conjuntura analisada, o comportamento militar é referido ao sistema, como comportamento modernizante, mas os cursos sociais posteriores alteram as características deste comportamento".
“Na medida, portanto, que os cursos do sistema aumentaram a significação política dos grupos de classe baixa, os militares, de um papel modernizante, tendem a assumir o papel de árbitros e finalmente o de defensor conservador da ordem social.”
A partir do fim do Estado Novo em 1945, há “... o estabelecimento de um novo modelo de sistema político, (a democracia que coincide com um comportamento militar mais marcadamente arbitral). É neste período que se cristalizam dois grandes grupos políticos militares, que entrarão em conflito em cada crise do sistema. De um lado, o grupo nacionalista, que se estrutura em torno da defesa do monopólio estatal do petróleo... De outro lado, o grupo da ESG (Escola Superior de Guerra), que pode também ser caracterizado como o grupo dos conspiradores históricos.”
Segundo Fernando Pedreira, os anos de 1954, 1955 e 1961 caracterizam bem o posicionamento dos militares enquanto árbitro da sociedade brasileira.
“O governo JK caracterizado pelo desenvolvimentismo como estratégia psicossocial de mobilização e pela forte liderança do Mal. Lott no plano militar, só apresenta duas crises militares, na área da Aeronáutica, ambas de pequena envergadura. A crise de Aragarças representa a radicalização de perspectivas do grupo militar anti-populista.”
No plano internacional, JK tenta atrair o apoio dos EUA a sua política. Para tanto e aproveitando-se do clima de Guerra Fria, JK coloca-se como um anticomunista. Assim, poderia obter o apoio dos EUA.
O Governo JK, do ponto de vista econômico em seu Plano de Metas, quebrou o paradigma do nacionalismo “caboclo”, ou seja, a melhor maneira de combater o nacionalismo tanto de direita quanto de esquerda era a prosperidade através do desenvolvimentismo.
A meu ver, os “Anos Dourados”, no período em que JK era presidente, foram uma conjugação de diversos fatores, entre os quais, a criação de mercado para diversas indústrias, a facilitação do fornecimento de matérias-primas bem como de bens de capitais. O limite entre a habilidade de JK para governar e os fatores conjunturais daquele momento é tarefa que requer um estudo bem mais aprofundado. Em outras palavras, qual dos dois aspectos foi preponderante? O desenvolvimento só existiu por causa da conjugação dos dois fatores? A relação causal determinante naquele período não é factível nesta pequena exposição ora realizada.
Miriam Limoeiro acerta em cheio quando coloca que o “desenvolvimentismo é a ideologia que propõe ‘mudar dentro da ordem para garantir a ordem’.”
Para Marly Rodrigues, havia uma contradição entre a internacionalização da economia e o nacionalismo populista no qual JK estava inserido.
Do ponto de vista social, o governo JK, apesar da forte propaganda em que havia prosperidade para todos, não foi bem sucedido. Se não vejamos: “As classes trabalhadoras - as quais também se pedira que se comportassem como ‘soldados do desenvolvimento’ - participavam desigualmente do clima de prosperidade. Embora os salários aumentassem em termos absolutos, a sua participação na expansão, em termos relativos, era cada vez menor. De 1955 a 1959, enquanto os lucros industriais aumentavam 76% e a produtividade 35%, o salário mínimo eleva-se apenas 15%.”
E Marly Rodrigues afirma que apesar de o pais ter entrado na fase de produção e consumo de bens duráveis, não houve “... uma transformação efetiva das relações políticas entre os diversos setores de classe e entre as classes.”
Mais a frente, Marly coloca que estava na própria gênese do desenvolvimentismo o descompasso entre o crescimento industrial e a pobreza reinante em vastas regiões do país, sobretudo no campo.
Mas a pobreza reinante no país (segundo os ideólogos do desenvolvimento) era apenas um detalhe do modelo agroexportador. Bastava a industrialização do país para que a pobreza acabasse. Percebe-se, nesta colocação, que a industrialização era vista como uma panaceia.
O homem JK, se é que se pode falar assim, era um mau administrador de seus próprios bens como ele próprio coloca em suas memórias.
As anotações do diário de JK “... mostram um Presidente que na vida civil, vive as voltas com negócios desastrados. O Banco Denasa, criado por ele e os genros, quase foi à bancarrota por uma administração desastrosa. JK também era sócio de uma empresa de construção civil em Portugal, que acabou sendo confiscada pela Revolução dos Cravos. Comprou uma fazenda onde pretendia plantar batata e criar gado, mas só conseguiu mais prejuízo. (...) Em 20 de dezembro de 1974, JK escreveu: ‘Tenho sido explorado por todo mundo’.” Era também um mulherengo conforme atesta uma reportagem numa revista semanal sobre o seu passado: Maria Lúcia Pedroso “... é uma pérola oculta na História do Brasil. Durante quase dezoito anos, ela teve um romance secreto com Juscelino Kubitschek.” Mas também “era do tipo excelente” conforme afirmação do entrevistado Otto. “Não era corrupto”, conforme colocação do entrevistado Walmy.
Como todo ser humano, JK tinha o seu lado considerado bom e o lado considerado ruim. É claro que esses julgamentos de valor dependem do contexto e dos valores em que está inserido o eventual analista.
Uma coisa têm sido constante quando se fala de JK: a sua pessoa é sempre preservada. Nesse particular, há até a mitificação do homem JK.
A impressão que fica do homem JK, a partir das referências à sua pessoa, é que o mesmo estava “além do bem e do mal”.
O político JK, a meu ver, como já coloquei, conseguiu captar o que os “dois mundos” (o mundo dos pobres onde crescera e o mundo das elites onde adentrara, principalmente após o seu casamento) tinham de melhor. Do “mundo” dos pobres captou a simplicidade, o “pegar nas mãos”, a espontaneidade. Do “mundo” das elites captou a sagacidade a articulação nos bastidores, a ilusão de que tudo é possível na política.
A idiossincrasia de um jovem que crescera em meio as maiores dificuldades sócio/econômico/financeira fica bem claro quando numa das passagens de sua autobiografia ele coloca que a pobreza em que vivia era circunstancial devido à morte precoce de seu pai e não “natural”, já que, no mínimo, era descendente próximo de europeu (ex-Tchecoslováquia). Dessa forma, o jovem JK indignava-se com a sua situação para que conseguisse forças para superá-la.
Uma coisa é certa, o político JK é engendrado a partir de um imbricamento de situações que, em muito, lembra o estilo frugal dos Puritanos quando de suas chegadas ao “Novo Mundo” (EUA), conforme descrito num trabalho de Weber. Quando garoto, estudara em colégio de padres. Aprendera francês com uma senhora francesa que morava em Diamantina. Tivera uma educação à espartana de sua mãe. Gostava de trabalhar, apesar de ser apenas um garoto. Como se vê, tinha um estilo de vida voltado para uma forte disciplina no dia-a-dia. Portanto, JK teve uma boa base para se tornar um grande político.
A partir daí, a questão era saber aproveitar as chances que poderiam lhe aparecer. É isso, talvez, que diferencie o político JK dos demais. Naquele momento em que havia uma guerra (a Revolução Constitucionalista de 1932), JK não se acovardou: foi e enfrentou as adversidades; conseguiu mostrar o seu valor enquanto um jovem médico; teve a sorte de ter tido o reconhecimento pelo seu trabalho por pessoas que viriam a ocupar cargos de destaque na administração do Estado.
Edgard Barros foi feliz quando colocou que JK tinha um estilo sofisticado em que conciliava generosidade, sutilidade, elitismo e oportunismo.
O político JK, certamente, perpassou por todos esses elementos citados por Edgard.
Da sua formação religiosa, certamente, saiu o seu profundo anticomunismo. Da sua educação rigorosa, certamente, saiu a sua disciplina tanto no poder quanto fora do poder. Da sua vida simples no interior, certamente, saiu a sua incrível capacidade de ser popular. Da sua indignação diante das dificuldades da vida, certamente saiu o político que queria transformar um país pobre em país rico.
A meu ver, Otto também foi muito feliz quando coloca na entrevista que devido à infância pobre em que JK vivera (o que, certamente, o levava a ter complexo de inferioridade), nasceu o político e administrador megalomaníaco.
Nem tudo são flores na vida política de JK. Afinal a vida política é feita por homens políticos com as suas virtudes e seus defeitos. E segundo o filósofo espanhol Ortega y Gasset (analisando o estadista em contraposição ao pusilânime), “não se espere que o estadista seja um homem virtuoso”. Os estadistas são homens de ação, basicamente inescrupulosos - no sentido de jamais permitirem que uma dúvida escrupulosa interrompa a ação. (...) Ele trapaceia, mente, alia-se ao diabo.
Só é absolutamente íntegro quando entra em jogo o Estado.
A grande acusação que se fazia a Napoleão é que ele era megalomaníaco. Claro que era. ... Não há nenhuma pessoa que se dispondo a mudar um Estado, não seja um megalomaníaco.
Vai além. Em geral, os estadistas têm uma adolescência extremamente conturbada e polêmica. Todo estadista tem um fogo interno, um vulcão que só se materializa na maturidade, quando ele logra conquistar o poder. ... O estadista incomoda. É dotado de grandes virtudes - e de enormes defeitos.”
Como se vê, o político JK fez enormes obras como a Pampulha, grandes rodovias, Brasília... e permitiu enormes corrupções. Aliou-se a Benedito Valadares, uma figura desprezível na política mineira conforme as citações em suas memórias, para projetar-se politicamente. Para conseguir a sua ascensão política, calou-se diante do Estado autoritário getulista em 1937, quando perdera o mandato de deputado federal, mesmo dizendo-se ser um democrata convicto. Tornou-se “cacique” político em Diamantina a despeito de sua convicção democrática.
Finalizando, o político JK não pode ser visto por uma pessoa que se pretenda analista como um homem que esteja acima do bem e do mal (excetuando-se a mitificação feita pelo povo na análise do homem JK enquanto “simplesmente” homem, como já coloquei acima). O seu projeto de nação tinha, evidentemente, enormes virtudes, mas também enormes defeitos, ou seja, dependendo da ótica política e teórica em que o analista esteja inserido.
E Ortega y Gasset foi, também, feliz quando definiu o estadista dessa maneira: “Tudo nele é enorme, exagerado, ameaçador. Incomoda a diferença de estatura. Incomoda a perspectiva de sucesso - já que a sua ânsia de poder sempre é ameaçadora. Incomoda a arrogância, a falta de limites.
Só que estadistas forjam nações.”

Luiz Fernando

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

O GOVERNO JK (1956-60)

O estilo JK era sofisticado, já que conseguia conciliar generosidade, elitismo e oportunismo, segundo o historiador Edgard Carone.
Ao modelo desenvolvimentista, Edgard frisa que JK via a “... relação país desenvolvido/país subdesenvolvido como uma relação de ‘inferioridade’ e não de exploração. Noutras palavras, era dada maior ênfase, portanto, ao discurso sobre ‘desenvolvimento’ do que ao discurso sobre ‘nacionalismo’”.
Passada a crise da posse, JK viajou para o exterior no início de 1956 em busca de apoio internacional. Foram vinte dias apressados pelos grandes centros econômicos durante os quais demonstrou pela primeira vez, enquanto Presidente, em escala internacional os seus dons de sedução.
Para JK, capitais estrangeiros seriam bem-vindos. Nesse sentido, a melhor maneira de combater o comunismo seria enfrentar a miséria com prosperidade e não com repressão. Portanto, JK demonstrava ser um profundo “anticomunista”.
Para a historiadora Marly Rodrigues, o governo JK tinha um novo estilo que fora denominado como Bossa-nova. O desenvolvimentismo foi a sua marca registrada. Para ela, JK foi o agente catalisador do período de efervescência que se delineava nos anos 50 do século passado no aspecto sócio-cultural e teria o seu ponto alto nos anos 60, também do século passado.
Ainda segundo Marly, o discurso desenvolvimentista, na verdade, representava a síntese do imbróglio social daquele momento, que se desaguava no populismo puro e simples.
Marly enfatiza a colocação da socióloga Miriam Limoeiro Cardoso segundo a qual, “o desenvolvimentismo é a ideologia que propõe ‘mudar dentro da ordem para garantir a ordem’. Concretamente isto significa mudar dentro do sistema capitalista para garantir o objetivo último que é o desenvolvimento capitalista do Brasil”.
Para o historiador LincolnPenna, o suporte intelectual da ideologia desenvolvimentista se deu a partir do “grupo de Itatiaia” - uma alusão ao lugar em que se encontravam, ou seja, o Parque Nacional do Itatiaia - que mais tarde dá origem ao Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política – IBESP - e que, por sua vez, dá origem ao Instituto Superior de Estudos Brasileiros (ISEB) e do Fórum “Roberto Simonsen” ligado a Federação das Indústria do Estado de São Paulo - FIESP. O primeiro ISEB concebia que estava representando parcelas da população que não estavam inseridas na ação governamental, já o segundo Fórum “Roberto Simonsen” ... se autodefiniam como porta-vozes da Nação.
Para Marly, é evidente que dadas as contradições internas do governo JK a partir de sua base de sustentação (PSD/PTB e militares), o estilo populista esbarraria em dificuldades e contradições enormes como a necessidade de internacionalizar a economia do país ao mesmo tempo em que havia um forte nacionalismo oriundo de seu próprio estilo populista. A esse respeito, a consubstanciação do nacional-desenvolvimentismo vai se dar através da construção da nova capital federal - Brasília - o que, na expressão da socióloga Maria Victória Benevides, representava a “a meta-síntese”.
Para Edgard, a despeito da oposição udenista em relação à construção de Brasília, JK conseguiu conquistar a simpatia e o apoio de vários segmentos da sociedade brasileira tais como: empresários, líderes sindicais, parcelas da esquerda, estudantes, intelectuais...
Ainda segundo Edgard, JK, como um sagaz, prestigia em muito o Congresso Nacional. Dessa maneira, a prerrogativa de veto presidencial foi exercida com muita precaução e moderação: dos projetos aprovados pelo legislativo, o presidente vetou apenas entre 3% a 5% nos anos de 1958 e 59.
Para Marly, “o qüinqüênio JK significou a entrada do Brasil na fase de produção e consumo de bens duráveis, sem que isso significasse uma transformação efetiva das relações políticas entre os diversos setores de classe e entre as classes”.
Penna coloca que a política econômica e financeira do governo JK serviu como mote para que passasse a haver um período de grande discussão na sociedade brasileira acerca da inserção do capital estrangeiro e do capital nacional. Essa situação, a meu ver, não acontecia somente no Brasil, mas também em escala internacional naquela conjuntura do Pós-Guerra, do “Plano Marshall” para a reconstrução da Europa...
Ainda segundo Penna, para alguns analistas, e ele não cita nenhum, o governo JK era forte politicamente, mas fraco institucionalmente. Essa situação era fruto de políticas populistas onde os governantes articulavam diretamente com as massas, prescindindo, assim, das organizações sócio-econômicas e políticas.
Citei, a partir dos autores analisados, um pouco das raízes do nacional-desenvolvimentismo. Mas quais as raízes do nacionalismo brasileiro vigente naquele momento em que JK governava o país? A resposta pode estar no estilo de governo de Getúlio Vargas nos anos 30, através da criação de empresas públicas para fortalecer o Estado: Companhia Siderúrgica Nacional-CSN, Conselho Nacional do Petróleo-CNP e, posteriormente, a Petróleo Brasileiro S.A-PETROBRÁS, bem como a “Centrais Elétricas” Brasileira-ELETROBRÁS. A intenção de Vargas era fortalecer o Estado e, consequentemente, o seu governo e criar, assim, um “caldo de cultura” em torno de si, enquanto líder. O nacionalismo, então, era o melhor caminho. Há, ainda, a colocação de Carone de que quando terminou “... a segunda Guerra Mundial, os capitais internacionais eram aplicados nos Estados Unidos e na Europa e destinavam-se basicamente à indústria militar e aos ramos a ela ligados. A produção desses países atendia assim quase exclusivamente às necessidades de seus próprios mercados. Tal situação iria favorecer , nas décadas de 30 e 40, a expansão industrial do Brasil em bases dominantemente nacionalistas”.
Marly Rodrigues afirma que através do “... lema ‘cinqüenta anos em cinco’, no qual baseou a campanha, JK estabeleceu o seu programa de governo. Durante a primeira reunião de ministros, em fevereiro de 1956, ele expôs o Plano de Metas e instituiu um órgão de controle da economia, o Conselho de Desenvolvimento, integrado por ministros, chefes do Gabinete Civil e Militar e pelos presidentes do Banco do Brasil e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico”.
Para Marly, o descompasso entre o crescimento industrial e a pobreza reinante em vastas regiões do país, sobretudo no campo, estava dentro da gênese do desenvolvimento nacional. “Presente nos discursos de JK e nos principais documentos do governo, a ideologia desenvolvimentista teria grande influência na história política do país. Não só funcionou como poderoso instrumento dos interesses industriais contra os agrários tradicionais, como durante muito tempo, influenciou grande parte das análises sobre a sociedade brasileira”.
Segundo os ideólogos do desenvolvimentismo, o atraso e a pobreza do país deviam-se, sobretudo, à ainda forte participação do setor agroexportador na economia brasileira, e não à situação de dependência econômica e política a que estava submetida toda a economia. Em consequência, deduziam, bastava industrializar o país para resolver todos os seus grandes problemas.
A internacionalização da economia brasileira no governo JK foi considerável. Numa palavra, no final de seu governo, quase a metade das 66 empresas de maior concentração de capital estava nas mãos dos estrangeiros.
Devido às emissões de dinheiro para financiar os investimentos do Estado na economia, a inflação começa a se tornar um problema para JK. Pressionado pelos credores internacionais, através do Fundo Monetário Internacional-FMI, para que controlasse a inflação, JK, de olho nas eleições presidenciais de 1965, rompe com aquele organismo. Nesse sentido, JK transferiu o problema inflacionário bem como o da dívida externa para o futuro Presidente.
Segundo o cineasta Sílvio Tendler, durante os anos JK, o Brasil teve a ilusão da confiança, o desejo de se internacionalizar, a vontade de se descobrir (Bossa Nova), Bienais abstratas. A conquista da Copa do Mundo de 1958 fez com que nosso destino fosse encarado como o melhor em tudo.
Para o cineasta, JK nunca desrespeitou a lógica da Guerra Fria. Para JK, os EUA só se interessariam pela América Latina caso o Brasil fosse contra o socialismo/comunismo.
Tendler coloca que JK começou a se despedir do poder no auge de sua popularidade. O seu maior orgulho era ter mantido o regime democrático a despeito dos esforços em contrário. JK conseguiu realizar o inacreditável feito de ter convencido a todos que a democracia no Brasil estava consolidada.
Já Penna coloca que no final do governo JK, ficava evidenciado pela articulação política, com vista a eleição de 1960, uma vantagem do projeto nacional-desenvolvimentista em detrimento do projeto internacionalizante.
A crítica que se fazia ao desenvolvimentismo de JK, segundo Edgard Carone, no final de seu governo, era de que o mesmo havia privilegiado os setores de bens de capital e de bens duráveis, estes últimos favorecendo essencialmente parcelas reduzidas da sociedade, o que o tornava altamente concentrador de renda. Somando-se a isso, havia uma inflação de 25% que penalizava, sobretudo, as camadas intermediárias de baixa e média renda bem como as classes trabalhadoras.
Finalizando, ainda segundo Carone, a articulação da insatisfação desses setores com a “... oposição já antiga de grupos agrários exportadores e importadores e camadas médias conservadoras (a UDN), seria decisiva para a eleição, pela primeira vez, de um candidato fora do esquema dominante”.