terça-feira, 1 de outubro de 2013

A MÍDIA NINJA ENTRE DEUS E O CAPETA



No recente Movimento de Manifestação das Ruas no Brasil, houve, entre outras coisas, uma novidade em interatividade coordenada de comunicação: tratava-se das NARRATIVAS INDEPENDENTES, JORNALISMO E AÇÃO – NINJA ou MÍDIA NINJA.
Quando me deparei pela primeira vez com o termo NINJA no Movimento das Ruas, lembrei-me dos agentes secretos do feudalismo japonês. E o pitoresco da situação é que o referido termo, utilizado pelos ativistas, veio mesmo a calhar como agente de comunicação num universo cheio de adversidade à iniciativa independente de informação.
A grande imprensa tentou desqualificar os militantes do NINJA por todos os meios. Afinal, ela estava quase banida, pelos manifestantes, da cobertura do Movimento das Ruas.
Mas como um grupo de jovens ousou enfrentar a polícia para fazer a cobertura jornalística das Manifestações em tempo real? A tamanha audácia foi a própria falta de informação sobre o Movimento que passou a existir após o repúdio aos jornalistas da grande imprensa. Havia um vácuo de informação no calor das Manifestações. Havia também necessidade de apoio da sociedade aos Manifestantes. Como na grande imprensa há toda uma filtragem da informação antes de chegar ao público, ela foi repudiada. Outro fator de desgaste dela foi o histórico de comprometimento com quem está no poder político e também com as grandes empresas privadas. Numa palavra, com os agentes financiadores da própria imprensa.
Diante da descrença dos manifestantes de Rua ante a grande imprensa, a Mídia NINJA foi a grande novidade. O famoso teórico canadense em comunicação, Herbert Marshall Mcluhan, cunhou o termo: “o meio é a mensagem”. Para ele, o veículo de informação é tão importante quanto a própria mensagem. Nesse sentido, o “meio”, a grande imprensa, é um canal contaminado por interesses escusos às Manifestações das Ruas.
Para efeito de ilustração, os adeptos do atual governo central chamam a grande imprensa brasileira de Partido da Imprensa Golpista – PIG. A meu ver, esse raciocínio é próprio de que tem visão canhestra de mundo. Noutras palavras, a grande imprensa sempre é mais a favor do que contra o governo de plantão. Alguém tem dúvidas quanto ao rumo das milionárias campanhas de publicidades dos governos? Estendendo mais o assunto, o Partido dos Trabalhadores só cresceu porque a grande imprensa lhe deu destaque. Ou os militantes que chamam a grande imprensa de PIG acham que foi obra do divino Espírito Santo a universalização da campanha do PT rumo ao poder? Para os militantes adeptos do governo central, tudo que é noticiado contra esse governo é golpe; já o que vem a favor, é capitalizado nas redes sociais como testemunho de competência. Um estranho mundo de dois pesos e duas medidas. Há outra forma também muito utilizada por esses militantes: todos que são contra a grande imprensa golpista, são automaticamente aliados. Para eles, o inimigo do inimigo é, por consequência, amigo. 
O avanço da Mídia NINJA, então, como canal de comunicação, praticamente oficial, das Manifestações das Ruas, foi um “meio” que transformou a mensagem que chegava aos lares brasileiros. Não havia ilha de edição para a cosmética da informação, como acontece na grande imprensa. Não havia necessidade disso. A informação era bruta. Era mediada apenas pelos equipamentos eletrônicos que, comparados aos da grande imprensa, eram rudimentares. Dessa maneira, o que se perdia em qualidade da informação pela precariedade dos equipamentos, ganhava-se pela rapidez e fidedignidade aos fatos ocorridos. Era uma linha direta entre o fato e a informação. Esse barulho todo deixou aturdida a grande imprensa. Afinal, tudo que era informado e maquiado por ela tinha sabor de “requentando”. Havia uma novidade no ar: destemidas pessoas se propunham a uma nova forma de trabalhar a informação. Lá pelas tantas, até a poderosa Rede Globo rendeu-se a pujança informativa da Mídia NINJA, noticiando a prisão de um rapaz pela polícia carioca tal qual filmado pelos ativistas.
A bem da verdade, a Mídia NINJA já existia desde 2011. Mas como canal de informação de um grande movimento, como o deste ano, ela estava praticamente no debute.
Para alguns analistas de comunicação, a Mídia NINJA pode ser algo que venha arejar a combalida e tendenciosa grande imprensa. Um jornalismo ativista que não encontra paralelo. Para outros, ela pode ser um “fogo de palha”. Como não tem estrutura econômica que a sustente, poderá ser engolida pela grande imprensa. Para um dos criadores dela, Bruno Torturra, a Mídia NINJA já está trabalhando uma forma de arrecadar fundos para se sustentar enquanto alternativa de imprensa. Ora, esses fundos não podem vir das empresas e nem dos governos, senão o destino dela será o mesmo da grande imprensa.
Herbert Mcluhan foi genial ao captar, ainda nos anos 60, aspectos da aldeia global em comunicação que se tornariam rotinas 50 anos depois: “Nessa aldeia a fronteira é eletrônica, o que está distante dessa conexão fica à margem do “subúrbio global”. Mcluhan defende a ideia que a imprensa retirou o ser humano do sentimento de tribo, o colocando numa leitura individual e distante dos fatos; por outro lado, a mídia eletrônica “retribalizou” o ser humano, colocando-o como receptor instantâneo de fatos recém-ocorridos”.
Com a Mídia NINJA, a população ganhou com a informação instantânea dos fatos. Contudo, esses ativistas terão agora que descobrirem formas de sobreviverem como polo alternativo de informação social. Para o bem ou para o mal, essa novidade informativa colocou em cheque a empoeirada grande imprensa nacional.
LUIZ FERNANDO DA SILVA

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

JOHN LOCKE E O CLIENTELISMO BRASILEIRO



A partir do Contrato Social, o liberalismo político lockeano assenta-se no Pacto do Consentimento. Como John Locke concebe esse aspecto? Para ele, os homens viviam em total liberdade e igualdade no Estado de Natureza, ou seja, no Jusnaturalismo. No entanto, o Estado de Natureza era caracterizado como um estágio pré-social e pré-político. Nesse estágio, apesar de suas qualidades, havia a necessidade de segurança dos indivíduos, já que poderiam surgir desavenças a respeito do direito de propriedade relativa aos bens genéricos como a vida, a liberdade, ou aos bens específicos como a posse de bens móveis. A esse direito de propriedade, no sentido amplo, Locke denomina como direitos naturais do ser humano.

É a partir dos possíveis problemas que poderiam advir que Locke concebe a união dos indivíduos livremente em torno de um projeto comum: um Pacto de Consentimento que levará ao Contrato Social.

Após a materialização do Contrato Social, Locke coloca que o próximo passo será a forma de governo. Para tanto, seguindo a visão de mundo liberal do autor, os indivíduos devem escolher o princípio da maioria com, necessariamente, respeito à minoria. A partir de então, estaria criado a sociedade política.

À relação entre governante/governado, Locke é peremptório: não existe! O seu argumento é que na sociedade política, através do Contrato Social, o que existe é uma relação de homens igualmente livres. Numa palavra, o Contrato Social não criaria nenhum direito novo, ou seja, fundamentar-se-ia no direito que já existia no Estado de Natureza.

Uma possível comparação dos ideais lockeano de Contrato Social e Relação Governante/Governado com a realidade política do Brasil atual devem ser situadas, primeiramente, a partir do contexto da formação do Estado Brasileiro. Afinal, o desenvolvimento do liberalismo lockeano até os nossos dias, evidentemente, partiu de pressupostos do Pacto de Consentimento, Princípio da maioria, que não existiram na formação do Estado Brasileiro.

A colonização do Brasil se deu a partir do absolutismo reinante na Península Ibérica. Dessa forma, a propriedade, na concepção de Locke, não foi conquistada pelos indivíduos que apresentassem características, como força física, suficiente para explorá-las, mas por doação da Coroa Portuguesa àqueles que lhes convinha.

A formação da sociedade política brasileira não foi por Pacto de Consentimento, nos termos de Locke, mas sim por um "Pacto de Lealdade" à Coroa.

Dadas as brevíssimas colocações sobre o “Pacto de Lealdade” que, a meu ver, tornar-se-ão o suporte do "desenvolvimento" político do Brasil, farei, a seguir, uma analogia dos referidos aspectos do pensamento lockeano com a realidade brasileira atual.

O aparecimento da moeda, segundo Locke, tornaria a propriedade privada ilimitada, ao contrário de quando ela era limitada e conquistada somente pela capacidade de trabalho. No Brasil atual, essa característica ilimitada da propriedade é o que transpassa na sociedade. Para ilustrar essa colocação, citarei o relatório do IBGE/2011, onde a distância entre os ricos e os pobres brasileiros ainda é muito grande: da riqueza nacional, os 20% mais ricos detêm 57,7% e os 40% mais pobres apenas 11%. Outro dado ilustrativo é o índice de mais de 9% de analfabetismo ainda existente no país.

A realidade política do Brasil atual está inserida num panorama em total contradição com o Contrato Social Lockeano. Para tanto, o cientista político, Wanderley Guilherme dos Santos, coloca que temos um grande número de agências como instituições políticas. Assim, nesse quesito, nos aproximamos das grandes poliarquias modernas como as democracias européias. Entretanto, apesar de haver um grande número de filiados a essas agências, não há o mecanismo de cidadania, ou seja, elas só existem no papel. Wanderley coloca que o que existe de fato, e generalizado, é uma luta de todos contra todos, no que ele chama de hobbesianismo social. Em outras palavras, há apenas "manchas" de poliarquia na sociedade, como os sindicatos, os partidos políticos, os conselhos de classes, os conselhos populares, nas chamadas organizações societárias. É a poliarquia envolta pelo hobbesianismo social.

Ora, o Contrato Social, concebido por Locke, previa uma sociedade de cidadãos, Nesse sentido, a criação da sociedade política teria que responder aos interesses da maioria e não de uma minoria, como acontece no Brasil. Locke é incisivo: a criação da sociedade política pelo do Contrato Social é apenas para complementar, através da segurança, da justiça, a situação de liberdade e igualdade que os indivíduos vivenciavam no Estado de Natureza. No Brasil, a sociedade política, nos termos de Wanderley, é apenas, no sentido geral, uma sociedade do "faz-de-conta". O que existe mesmo é um desregramento social arraigado e, nesse sentido, diametralmente oposto à tese de Locke.

No que concerne à relação Governante/Governado, o que existe de fato no Brasil atual é uma sociedade permeada pela desigualdade. Portanto, a relação de igual preconizada por Locke, através da criação da Sociedade Política, não existe em nosso país. O que sobra é uma sociedade onde o público e o privado é manipulado ao bel-prazer da elite política até os nossos dias. Para ilustrar o poder da elite, basta citar que na história do Estado de Minas Gerais, pouco mais de uma dezena de famílias dominam a cena política através da governadoria. E na sociedade política mineira, até a década de 70, o que predominava era o setor agrário e a relação clientelística com o poder.

Ora, se há mistura entre o público e o privado; se somente uma minoria usufrui dessa "nefasta" mistura; se o indivíduo é um cliente político, logo ele é um dependente de favores do Estado e, consequentemente, não é um cidadão igual na relação com os governantes. Então, efetivamente, não há liberalismo e, consequentemente, não há capitalismo baseado na iniciativa privada. Por último, mas não menos importante, não há o Contrato Social. O que há, nos termos de Locke, é uma relação governante/governado.





Luiz Fernando da Silva

sábado, 7 de setembro de 2013

A PAIXÃO AMOROSA

“Aquele que ama é um ser mais divino que o amado, pois está possuído por um deus. Concluo, portanto, que Eros é o mais antigo, o mais honorável e o mais capaz entre os deuses de propiciar a virtude e a felicidade dos homens, seja durante a vida, seja após a morte” (Platão, 2001, p.35).
Desde os tempos mais remotos, o amor, enquanto experiência inarredável da vida humana, configura-se como um tema de grande relevância para as reflexões teóricas e literárias. Dessa forma, o fragmento acima é demonstrativo da importância que grandes pensadores da nossa civilização deram a ele. Desde os gregos antigos até a modernidade, os homens buscam compreender esse tão intrigante fenômeno. Assim, por exemplo, diz Nietzsche: “a história do amor é o único e verdadeiro interesse comum a todos os círculos (...). Toda a produção de nossos poetas e pensadores, da maior à mais insignificante, é mais que caracterizada pela excessiva importância da história de amor que nela surge como história principal”. Dramaturgos e escritores também elaboraram tramas amorosas que se imortalizaram. Como ilustração, tomemos a Romeu e Julieta de Shaskespeare, e O Dom Casmurro de Machado de Assis. Ambas obras literárias, escritas em épocas diversas, mas que se notabilizaram pela maestria com a qual exploram os dramas que podem advir sobre uma relação amorosa.
Um dos aspectos que incidem na problemática do amor é de natureza terminológica. Comumente há o emparelhamento entre os conceitos amor e paixão. Ambos, no mais das vezes, são empregados como sinônimos. Todavia, essa equiparação pode não ser legítima sob alguns aspectos, principalmente em relação à prática, na forma como se dão as relações afetivas na vida cotidiana. Nesse sentido, é possível verificar, dentre outras possibilidades, duas configurações relacionais quando o que está em jogo é afeto e sexo. Dito de outra forma, quando a finalidade de uma relação entre duas pessoas é sexo mais afeto, é possível se distinguir dois tipos de ligação: paixão e amor. O primeiro é marcado por uma forte atração de um pelo outro. Há um desejo quase que irresistível de ficar ao lado da pessoa. Os pensamentos e lembranças envolvendo o outro são recorrentes, o tempo todo se pensa na outra pessoa. Essa situação chega a assumir caráter obsessivo. A vida muda complemente. É como se quase toda a energia do indivíduo fosse investida na pessoa amada. Quando há o encontro entre ambos, sensações intensas são experimentadas: o coração dispara, o estômago recebe uma lufada violenta e prazerosamente congelante, as pernas ficam bambas e os pensamentos viajam rapidamente. A atração física é intensa.
Mas o tempo passa... Com ele tendem a passar também esses arroubos emocionais.  Assim, um segundo tipo de ligação pode se instalar. Nele, o interesse sexual, antes tão arrebatador, tende a diminuir e a outra pessoa já não tem a mesma onipresença. No entanto, nessa fase, pode surgir uma relação de maior estabilidade, pautada por afinidades e expectativas mais realistas, diálogo e admiração mútua. Ao primeiro momento pode se dar o nome de PAIXÃO, ao segundo de AMOR.
Vale destacar que não é fácil encontrar por aí a segunda situação. O que ocorre com frequência é a separação ou distanciamento quando a paixão se acaba. Também é comum as pessoas relatarem insatisfação, pesar e amargura por conviverem com alguém pelo qual já não se sente apaixonado. Em alguns casos, isso pode se tornar um sofrimento excruciante. Em uma relação em que o desejo sexual e a troca de afetos positivos se extinguiram, a agressividade, a raiva, a intolerância e a mágoa podem facilmente tomar lugar e passar a serem os referencias das trocas entre o casal. Todavia, essa diferenciação entre o amor e a paixão não é consensual. Muitos não veem diferença entre eles, outros afirmam tratar-se de fenômenos bem distintos.
Controvérsias à parte, misturemos alhos com bugalhos e demos aqui o nome de paixão amorosa a este tão famigerado fenômeno. A paixão amorosa, como já foi apontado acima, é um dos estados mais intensos experimentados pelo ser humano. Devido à intensidade das emoções que a ela estão associadas, um indivíduo apaixonado pode ter sua vida modificada radicalmente. As relações sociais com amigos e familiares, o trabalho e outras atividades tidas antes como prazerosas pela pessoa, num estado de apaixonamento, podem perder muito de sua importância ou até mesmo, em casos mais drásticos, perder totalmente o significado. A pessoa amada passa a ser o centro do universo e tudo passa a girar em torno dela. Não há defeitos no objeto da paixão amorosa. Tudo é belo e maravilhoso. A paixão dá asas ao coração e aos pensamentos. A pessoa passa a viver como se, repentinamente, tivesse sido possuída por uma força incontrolável ou por um deus, nas palavras de Platão. A outra pessoa lhe dá segurança e sua presença é uma fonte de bem-estar. Por isso, o desejo de fusão com a pessoa amada é muito comum. Toda essa experiência é marcada por sensações de forte prazer. Mas, nem tudo são flores.
A paixão amorosa, quase que fatalmente, está relacionada a fortes sofrimentos e pode mesmo descambar patologias e tragédias. No próximo texto deste autor neste espaço, iremos tratar dos desdobramentos psicopatológicos da paixão amorosa.

João Paulo Braga Floriano

domingo, 1 de setembro de 2013

OS MÉDICOS, OS RINCÕES E A JORNALISTA


Uma grande disputa na seara da medicina assola o país: de um lado, o governo central decretando uma política por “mais médicos”; do outro, a classe médica do país se rebelando contra a política de atração de profissionais vindos do exterior. 

Os médicos nacionais gozam de muito prestígio e têm muito poder, mas nem sempre foi assim. O Brasil, até o século XIX, era dotado de muitas formas de curandeirismo. A medicina popular ia desde os pajés, passando pelos curandeiros, religiões africanas, até a Jesuítica. Já a medicina universitária tal qual conhecemos hoje, era algo muito distante daquela realidade. Durante os três primeiros séculos de Brasil, havia um número ínfimo de formados na medicina universitária. E, mesmo assim, não eram brasileiros, eram médicos vindos de Portugal. Segundo o filósofo Roberto Machado, eram no máximo dez profissionais. Portanto, o que estava presente, de forma hegemônica, era a medicina popular.

A antropóloga Paula Montero, no livro “da doença à desordem, a magia da Umbanda”, conta que, durante os dois primeiros séculos de Brasil, eram poucos os chamados cirurgiões-barbeiros e aprendizes de boticários a desembarcarem no Brasil. E eram, também, pessoas de origem humildes, degredados e aventureiros, sendo tratados pelos Senhores de Engenhos como meros serviçais. Para Paula, “o número reduzido de profissionais, o baixo prestígio social da profissão que facilitava seu acesso a negros e mulatos, a falta de recursos técnicos e sua extrema simplicidade foram fatores que fizeram da medicina ibérica uma terapêutica muitas vezes preterida, com relação à medicina popular”.

Com a vida da família Real para o Brasil, houve a implantação de faculdades de medicina. Dessa forma, o século XIX marca para a medicina popular um futuro menos nobre. A medicina universitária decreta, a partir de então, uma verdadeira “guerra santa” contra a medicina popular. A terapêutica popular passa, então, a ser taxada de charlatanismo e caso de polícia. 

Ainda segundo Paula, a medicina universitária vai se impor realmente no Brasil somente a partir do final do século XIX e início do século XX, com a criação do Instituto Butantã, o de bacteriologia e pelos resultados no diagnóstico de patologias tropicais. O saneamento e o tratamento das endemias realizados no Rio de Janeiro, no início do século XX, pelos sanitaristas Oswaldo Cruz e Vital Brasil, serão um marco na legitimação da terapêutica universitária como hegemônica.

A partir de então, o status da medicina universitária voa para cima tal qual um foguete. Isto é um ponto quase inquestionável. Mas, será que favoreceu toda a sociedade? É aí que mora a questão maior: a ciência médica aportou-se nos pontos urbanizados e de grande concentração populacional. Os rincões menos povoados ficaram a ver navios. Mas por que isso se sucedeu?

Como secretário de saúde numa pequena cidade do interior de Minas, eu tinha dificuldades em contratar médicos, mesmo com altos salários, e ficava a me perguntar: por que os médicos resistem tanto a vir para uma pequena cidade? E não obtinha respostas plausíveis. Anos mais tarde, o famoso médico Adib Jatene, num programa de televisão, respondeu a esta questão de forma muito clara. Para ele, os médicos só querem trabalhar onde há grandes centros de diagnósticos. Daí, a dificuldade em enfrentar pequenas cidades, que são desprovidas desses centros. Numa palavra, o sujeito forma-se médico, mas não tem formação suficiente para medicar sem auxílio daqueles diagnósticos feitos em laboratórios e outros centros de saúde.

A partir daquela entrevista do médico Jatene, percebi, então, o motivo da predileção dos médicos em ficarem em grandes centros urbanos, mesmo tendo uma competição maior na profissão com seus pares. A propósito, um deputado do Pará, em discurso recente na Câmara dos Deputados, disse que há prefeitos lá no Estado dele que oferecem 20 mil reais por mês ao médico e ele diz não; oferecem 30 mil reais e ele diz não... Para pensar em ir para lá, há que se oferecer 40 mil reais mensais ou até mais do que isso. Uma situação totalmente complicada para o governante, já que em muitos desses municípios, a principal fonte de arrecadação financeira é o Fundo de Participação dos Municípios – FPM.

Quando a Presidente Dilma, no auge das manifestações de rua, lançou o programa “Mais médicos”, houve uma gritaria geral no reino das ciências médicas. Tarefa ousada do governo central em enfrentar os “homens de branco”. Um governante não pode só fingir que governa, há que ter em mente o bem-estar da população e enfrentar certos corporativismos nefastos. Assim, a roseira dos médicos começou a balançar. Como represália, os médicos fizeram até passeatas. Os Conselhos Regionais de Medicina – CRMs, que são muito vagarosos na punição de médicos por acometimento de erros, alardearam, rapidamente, que serão severos com os médicos estrangeiros. Nessa disputa, está bem desenhado o caráter dos médicos. Querem o poder pelo poder. O juramento de Hipócrates é apenas um detalhe na vida desses senhores.

Falar mal de médicos em público é coisa rara. Quase todo mundo tem medo de médico. Eles detêm o discurso de autoridade na área da saúde. São os que atestam a vida e a morte. Assim, o médico não pensa que é Deus... Ele tem certeza disso. Essa visão de mundo do médico é aprovada por uma população que os trata como doutores, sem eles terem feito doutorado e ,também, os bajula excessivamente.

A vinda de médicos estrangeiros não garante perda de status para os médicos brasileiros. Contudo, esse fator pode deixá-los com menos força de barganha no sistema de saúde do país. E, certamente, é isso que eles temem. Mas, pode ser uma concorrência benéfica para a visão de mundo dos médicos brasileiros. Noutras palavras, os médicos formados em Cuba saem da faculdade para enfrentar uma realidade desprovida da parafernália eletrônica de diagnósticos que existem aqui no Brasil. Talvez, o CRM e o Ministério da Educação atentem mais para o fato da dependência eletrônica relativa aos diagnósticos na formação do médico aqui em nosso país.

Nesse embate entre governo e médicos, apareceu uma infeliz, que se denomina jornalista lá no Rio Grande do Norte, comparando as médicas vindas de Cuba a empregadas domésticas. Se ela tivesse seguido a cartilha jornalística e lido sobre a história da medicina, pelo menos, não cometeria em rede social tamanha barbaridade. Embora ela tenha pedido desculpas posteriormente, ficou a marca de uma sociedade que concebe o médico como alto, branco e aristocrático. Mas esse fator é mesmo realidade no Brasil. Nas piores faculdades de medicina, o valor da mensalidade é sempre um acinte à maioria do povo brasileiro. Daí, a seleção das pessoas aristocráticas para serem médicas.

Para um país de dimensão continental, há necessidade de uma medicina mais próxima do cidadão, ainda que seja nos confins da Amazônia. Se os médicos brasileiros resistem a enfrentar essa questão; se há possibilidade de trazer médicos de outros países dispostos a se embrenharem sertão afora; o caminho da equidade na saúde estará mais no horizonte da população menos favorecida pela terapêutica acadêmica. Avante!

Luiz Fernando da Silva


quarta-feira, 28 de agosto de 2013

O “JEITINHO BRASILEIRO” É UMA “SOLUCIONÁTICA”?

                             A miscigenação da sociedade brasileira sempre foi vista por alguns antropólogos e sociólogos como um aspecto negativo da sociedade brasileira. O Jesuíta André João Antonil, estudioso da área, já analisava no século XVIII que a mistura das raças traria grandes problemas para a nação brasileira. Posteriormente, para teóricos como Nina Rodrigues, no século XIX, a tendência da sociedade brasileira era tornar-se “parda”. Dessa forma, as “qualidades” da “raça” branca tenderiam a ser reduzidas, já que o cruzamento com a “raça” negra, de “qualidade” inferior, haveria um nivelamento por baixo de nossa sociedade. Nina tentava demonstrar, por A mais B, que isso era uma tendência irreversível. Para tanto, afirmava que a inferioridade do negro era genética.

                            Para situar a questão racial do ponto de vista esquemático, no Brasil temos uma triangulação entre o branco, o negro e o mulato. Nos EUA, há apenas uma relação dual, ou seja, entre brancos e negros. Nesse sentido, se, no Brasil, temos o fenótipo cor como demarcação social, nos EUA, temos fenótipo genético, ou seja, basta ter o sangue de negro para ser caracterizado como tal, independentemente se é, na aparência, branco.

                            Roberto DaMatta, antropólogo brasileiro, é um grande analista da questão do mosaico racial brasileiro. Assim, afirma que o aspecto fundamental nesse estudo é a intermediação entre as “raças” branca, negra e índia. DaMatta, no livro “O que faz brasil, Brasil”, procura “... discutir os caminhos que tornam a sociedade brasileira diferente e única, muito embora esteja, como outros sistemas sociais, também submetida a certos fatores sociais, políticos e econômicos comuns. Nesse sentido, concorda com Otávio Paz, autor do livro Labirinto da Solidão e Post-Scriptum, que escreveu: “Alguns acham que todas as diferenças entre os norte-americanos e nós são econômicas, isto é, que eles são ricos e nós somos pobres, que nasceram na democracia, no capitalismo e na Revolução Industrial e nós nascemos na Contra-Reforma, no monopólio e no Feudalismo”.

                            Como se vê, o estudo das etnias ou “raças” foi um grande desafio para os antropólogos desvendarem o que subjazia, em certos aspectos “sui generis”, à alma brasileira.

                            A criação da famosa expressão “jeitinho brasileiro” foi um produto dessa relação entre as etnias do povo brasileiro. Num largo espaço de tempo, o termo sempre foi eivado de um caráter pejorativo. Afinal, o “jeitinho brasileiro” era sinônimo do livre trânsito de pessoas dotadas de bastante influência nos círculos sociais detentores de poder ou, ainda, de pessoas dotadas do famoso “jogo de cintura”. Na verdade, mais do que isso, representava a insubordinação às regras sociais. Nesse sentido, toda maracutaia do tipo “Gersoniana”, expressa, por exemplo, numa antiga propaganda de cigarro “leve vantagem você também”, era incluída no “jeitinho brasileiro”. Assim, essa “qualidade” do povo brasileiro contrastava com o estilo sisudo do povo de origem germânica, que era tido como um exemplo a ser seguido por qualquer povo que quisesse alcançar desenvolvimento e cidadania plena.

                            O “jeitinho brasileiro” tem perdido espaço em tempo de uma grande marcha em favor do sentimento de cidadania. A propósito, tempos atrás, mais precisamente em 18 de abril de 1999, o jornal americano “The New York Times” publicou uma matéria onde o “jeitinho brasileiro” era elogiado do ponto de vista econômico. Naquele artigo, o jornalista Simon Romero elogiava a pujança da sociedade brasileira em termos de capacidade em encontrar soluções inteligentes para se safar das crises financeiras que assolavam o país. O famoso “jogo de cintura” fazia com que o país se sobressaísse em tempos de dificuldade burocráticas e financeiras nos grandes períodos de recessão.

                            De repente, o mundo começava a ver que havia um país abaixo da linha do Equador que tinha um estilo muito peculiar e atrativo em relação às respostas dadas à sociedade em tempo de crises. Para tanto,  “pai da matéria” em antropologia, Roberto DaMatta explicou que essa capacidade do povo brasileiro “... propicia mais espaço para negociações”. Em outros termos, “é uma ponte entre dois mundos”. “Um no qual dominam os velhos métodos e o senso comum e outro no qual a nova estrutura da sociedade não é justa ou racional”, completava o antropólogo.

                            Essa característica brasileira é o que poderíamos chamar de tecnologia “genuinamente” nacional na área de relações humanas. Portanto, um “know how” tupiniquim que poderia assombrar os asiáticos, europeus e norte-americanos. Segundo o jornal americano, muitas empresas brasileiras começaram a adotar o “jeitinho brasileiro” como técnica de sobrevivência ante as imensas crises econômicas do país.

                            O estilo de atuar do povo brasileiro, que antes era um “patinho feio” consubstanciado no “Jeitinho brasileiro”, pode se tornar uma inovação nas relações humanas. O grande paradigma no estilo chinês, onde são conciliadas a economia de mercado com uma vasta burocracia autoritária chamada de “socialista”, juntamente com um grande território, um grande e poderoso exército e uma população com mais de um bilhão e meio de pessoas pode, em futuro breve, tornar-se obsoleto.



Luiz Fernando da Silva

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

“Eu não ligo para o que os outros pensam a meu respeito!” Será...???



A consciência é um fenômeno complexo e intrigante. Talvez, a ela estejam relacionados os maiores problemas da história da Filosofia, da Psicologia e das chamadas Neurociências.
O que é a consciência? Qual a sua relação com o cérebro? Ela é produto do cérebro ou ela produz o cérebro? Se ela for produto do cérebro, como este a produz? A consciência cria o mundo ou ela reflete o mundo em que vivemos? O mundo existe sem a consciência? Com a morte do corpo, a consciência sobrevive ou é com ele extinta? Quais são os limites da consciência? Ela tem limites? Todas essas são questões de grosso calibre e, na tentativa de respondê-las, diversas escolas de filosofia e psicologia foram fundadas.
O debate sobre as questões envolvendo a consciência continua vigoroso. É comum vermos na mídia reportagens sobre o tema. Revistas especializadas e de divulgação científica, programas de televisão, inúmeros livros, séries e documentários comumente tratam da temática da consciência. Todavia, mesmo sendo tão amplamente abordada em estudos e discussões, a consciência ainda guarda seus mistérios, ou, melhor dizendo, ela ainda, em muitos sentidos, consiste num grande enigma a ser desvendado por cientistas e filósofos. Mas, sobre isso, conversaremos em outra ocasião. Hoje, iremos falar sobre um outro aspecto da consciência, um aspecto mais relacionado à psicologia.
O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin, em seu livro Os sete saberes necessários à Educação do Futuro introduz o aspecto da consciência do qual iremos tratar. Citando Marx, afirma Morin que “os produtos do cérebro humano têm o aspecto de seres independentes, dotados de corpos particulares em comunicação com os humanos e entre si”. E ele completa: “as crenças e as ideias não são somente produtos da mente, são também seres mentais que têm vida e poder. Dessa maneira, podem possuir-nos”.
Essas citações feitas pelo pesquisador francês mencionado fazem referência a um aspecto da fenomenologia da consciência, ou seja, elas falam de algo que acontece com a consciência como ela se nos apresenta, da maneira como a experimentamos. Esse aspecto é a independência que nossas crenças parecem ter sobre nós mesmos em muitas ocasiões. Aqui, a análise que está sendo feita diz respeito ao modo como nós, seres humanos, experimentamos nossa consciência e sobre os efeitos dessa experiência sobre nós mesmos. Enfim, estamos falando de psicologia, mesmo considerando que a noção de independência das ideias tenha implicações sociológicas e filosóficas.
Mas, o que tem haver a alegada independência de nossas crenças e ou ideias como o título deste artigo? Muita coisa. É comum afirmarmos que não nos importamos com o que as pessoas dizem, que não estamos nem aí pra isso. Mas, será que não mesmo? Será que somos capazes de não atribuirmos nenhum valor ao que as pessoas pensam sobre nós? Será que somos capazes de sermos totalmente livres da opinião dos outros?
De fato e sem rodeios, preocupamo-nos sim com o que as pessoas irão dizer ou pensar sobre nós. Isso, inclusive é um dos pilares do contrato social, sem o qual a vida em sociedade seria inviabilizada. Ou seja, temos em nós a crença de que devemos nos comportar dessa ou daquela maneira para termos a aprovação de nossos pares ou de determinadas pessoas ou para que elas não pensem isso ou aquilo de nós. Isso pode ser verificado num ato de carinho para com um amigo ou para com a pessoa amada, no respeito à propriedade alheia, no tato que temos em nossos contatos sociais e por aí vai. Se não tivéssemos a desagradável sensação causada pelo constrangimento que surge diante de uma reprovação feita por outra pessoa sobre os nossos comportamentos, as coisas seriam bem diferentes. Com certeza! Dizem os entendidos que os psicopatas não têm esses constrangimentos. Aí, dá pra se ter uma noção de como as coisas seriam em um mundo onde ninguém se importasse com o que as pessoas vão dizer ou pensar umas das outras...
No entanto, há extremismos patológicos. Em termos clínicos, muitas psicopatologias graves como depressão e transtornos de ansiedade estão relacionadas à preocupação exagerada com a avaliação de terceiros. Muitas pessoas adoecem devido ao medo paralisante que sentem diante da opinião de outras pessoas sobre elas. Algumas ficam completamente paralisadas somente com a possibilidade de virem a ser avaliadas pelos outros. E não estamos falando aqui de avaliações complexas não. “O que irão dizer da minha roupa?” “O que irão pensar da minha aparência, do meu modo de andar e de falar?” “O que irão achar das minhas idéias?” “O que vão pensar de mim se eu falar a verdade ou der a minha opinião sincera?” “Será que me considerarão burro, feio, inadequado?”. “Se eu for espontâneo, será que irão me excluir ou pensarem que sou chato e estraga-prazeres, do contra, encrenqueiro?”.
O jogo social não é fácil. Parece que vivemos em uma luta constante entre agradar as pessoas e satisfazer-lhes as necessidades e sermos agradáveis conosco mesmos e satisfazer nossos interesses. Ocorre que, às vezes, as nossas crenças adquirem uma independência patológica. Nesse caso, elas, como bem disse Morin, passam a nos possuir. No entanto, a posse da qual estamos aqui falando é aquela destrutiva e incapacitante. Quando o juízo que as pessoas irão fazer de nós se torna um fardo excessivo, algo angustiante e acompanhado de muita ansiedade; quando deixamos de frequentar certos lugares por medo de sermos avaliados; quando evitamos pessoas para que elas não nos avaliem, podem ser sinais de que as coisas não estão indo bem. Nesses casos, nossas crenças ou ideias podem estar se tornando destrutivas para nós mesmos. Aqui, cabe uma questão: como ou quando as nossas crenças ou ideias tornam-se destrutivas ou patológicas? Elas se tornam destrutivas ou patológicas quando não percebemos que elas não são seres independentes de nós mesmos, como se fossem homúnculos que estão dentro da nossa cabeça. Nossas crenças nos corroem e incapacitam quando perdemos a capacidade de questioná-las, de debatermos com elas.
Preocupamo-nos sim com o que os outros pensam ou irão pensar sobre nós. É natural e necessário que seja assim. No entanto, essa preocupação não deve perder de vista a relatividade do que pensamos. Nossas crenças e ideias resultam da nossa interação com o mundo. O mundo transforma-se constantemente. Também nós devemos ficar atentos para que nossas crenças e ideias não se solidifiquem e se tornem obstáculos para a nossa vida social e também para a nossa satisfação e contentamento pessoal.

João Paulo Braga Floriano